DO AMOR TRANSITÓRIO
Ilógica e avessa, te sigo.
-Me delato.
Ocorre-me um eu
inevitavelmente despovoado
e permanente
nos estreitos dias de luz moribunda.
Prossigo qual bicho espantado,
diante do passado e desse agora.
Por instantes, nos meus olhos,
agressivo espanto.
Não conhecia das dores do mundo,
o desencanto.
A lua é vã,
o céu é coisa gasta.
E lá se vai o amor...
Estranhamente,
meu íntimo arcanjo,
se desencantou.
Gabriel Felipe Jacomel
UM BONDE CHAMADO MATINA
Galo maldito. É trauma recôndito, esse bicho; Mastigado, remoído... Em cada despertar.
Em certas madrugadas, tampava o ouvido a caminho da escola para evitar o berro deles. Poucos anos antes, ainda chorava ao vê-los na tevê. Depois de um tempo passou a se conter, esconder os ouvidos até as trombetas pararem, até aceitar que, mesmo achando o timbre horrível, tem quem goste de trombeta.
Mas galo com problemas de autoafirmação no meio da madrugada, isso já era demais! Sabia, os sinos dobravam para si.
E contagiados, os cães aflitos de noites perdidas, deram início a um lamento de carpideira - como se no juízo final a carrocinha viesse para fazer cada um deles pagar por seus muitos pecados de cachorro.
E depois veio o alarme do carro, vigia de prontidão para casos de cão ladrão. E derradeiro: O primeiro latão da manhã, urrando ao levar de vez meu sono embora.
Foto de Giulia Bersani.
Gabriel Felipe Jacomel
SCHOOL
Era o seu primeiro ano naquela escola. Um brilhante iniciado que, todos esperavam, não iria fazer feio. Todos vírgula. Alguns. A Associação de Pais e Professores, os colegas diretores e o ombro de muitos Amigos.
Não falharia naquele teste.
Mas já era quase almoço e, no ímpeto da manhã, esquecera o teste de Fisiologia. Estava apertado. De dar dó! Bem, todos sabem que, bom, naquele tempo, oras, você sabe muito bem que só pode ir ao banheiro depois de ler isso; Em suma, quando eu der a permissão.
E quando terminar o teste.
Mas já era a segunda vez que pedia, agora implorava com certa vergonha da cocota enamorada à diagonal de sua carteira.
Desde então, adquirira uma relação muito dúbia com as instituições: Uma vontade de sair correndo, teste em branco. Que resultava em calças molhadas no mesmo lugar.
Foto de Bryan Durushia.
Gabriel Felipe Jacomel
BOM DIA
Certa manhã acordou de sonhos tranquilos.
Logicamente, havia algo de errado naquele dia. Ripas de madeira pressionavam costas e costelas; Sentia perto do rosto a fria limitação, menos de um palmo era a distância até seu corpo... Seria a tampa de meu caixão? - pensou. Era uma criança de imaginação mórbida e já tinha lido o bastante sobre pessoas enterradas vivas, tanto como favor como por punição... Antes que precisasse emular o desespero dessas personagens dos livros e filmes que tinha visto, antes de esmurrar o seu caixão com a pouca força do corpo que acorda, tratou de confirmar, conforme a vista ia se acostumando, que a tal muralha que se estendia em sua frente era MESMO o piso azulejado de seu quarto.
De qualquer modo, essa informação não lhe fornecera a segurança devida e merecida, a pequena distância entre ele e o piso era ainda agoniante e o seu corpo ainda parecia ser tragado com força em direção às farpas da madeira fina que formava o que acreditava ser o estrado de sua cama. Assim como pouco ajudava perceber (pela parca luminosidade que adentrava o quarto) que ainda não havia amanhecido. Sua mãe tinha o sono leve e odiava perder os preciosos minutos de sono anteriores ao Sol e à tripla jornada de trabalho. Qualquer barulho poderia ser mortal e, por alguns segundos, sentiu-se orgulhoso de sua serenidade até o momento, orgulhoso de não colocar tudo abaixo como sempre o incriminavam. Antigamente, tinha medo dos monstros que debaixo da sua cama moravam, mas agora entendia o porquê deles gritarem tanto...
Mas não ia gritar.
Estendendo ao máximo a sua mão esquerda pôde reconhecer o seu criado-mudo, cujos pés tateou até chegar ao piso com o qual se defrontava e que, na direção contrária, se prolongavam pelo infinito abismo que se tornara seu quarto.
Tinha, de fato, acordado invertido!
De tanto desrespeitar a gravidade das situações que lhe ensinavam na escola, tinha sido esquecido e trapaceado pela gravidade. Considerou, então, que todos os precedentes da física estavam em aberto; Que também poderia jogar sujo com a legalidade terrena e facilitar a sua fuga/queda/despertar com a ajuda do criado-mudo. Bastava um pouco da sorte dos filmes de ação: Se fizesse uma alavanca com a perna esquerda, poderia, com o impulso, tentar cravar as mãos no móvel e evitar a queda brusca em direção ao teto de seu quarto. Assim se livraria da dureza dos grilhões do est(r)ado em que estava - e estava até criando certa simpatia por ficar embaixo da cama, no quentinho das ripas separadas, mas estava também bastante atrasado para o horário escolar.
Tomou coragem para enfrentar mais um dia.
Decidiu começar com o pé esquerdo. Lançou seu corpo como em um passo de ballet para a queda de sua vida. Dispensou a ajuda de criados!
Subiu aos céus.
Se estatelou no teto!!!
Apesar de todo o virtuosismo da coreografia, o barulho não impede que a fera acorde... Não será um dia bom pra ambos.
- Caiu da cama, menino? Desce daí e limpa esse sangue no piso novo.
Foto de Nicolas Bruno.
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